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A conta do eleitor que não conta - 2

há 1 dia
4 min de leitura

O Brasil reelegeu Lula com a menor abstenção do segundo turno em duas décadas. Ainda assim, mais de 30 milhões de cidadãos não votaram. O que esses números revelam sobre nossa democracia?

 

Adriano Floriani

 


O Brasil terminou o domingo (25/10) fazendo contas. Lula foi reeleito presidente com 64,2 milhões de votos, 51,79% dos válidos. Flávio Bolsonaro recebeu 59,8 milhões, ou 48,21%. Uma diferença de 4,4 milhões de votos definiu o resultado.


Houve outra conta importante. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,21% no segundo, o menor percentual dessa etapa desde 2006. Mais brasileiros compareceram às urnas, contrariando a tendência habitual de redução da participação entre os dois turnos.

 

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, celebrou o resultado. Em seu pronunciamento, reconheceu a vitória de Lula, cumprimentou os dois candidatos e destacou os esforços da Justiça Eleitoral para ampliar a participação popular.

 

A queda da abstenção foi apresentada como um indicador especialmente relevante diante do que chamou de suposta dificuldade do eleitor para votar. O dado merece ser celebrado. A interpretação, porém, exige cuidado.


Cerca de 30,5 milhões de brasileiros aptos a votar não compareceram às urnas. É muita gente para desaparecer atrás de um percentual. E a redução da abstenção nacional, embora significativa, não esclarece as condições em que cada eleitor conseguiu ou deixou de exercer seu direito.

 

Não sabemos por que essas pessoas faltaram. Algumas podem ter decidido não participar. Outras talvez não tenham encontrado razões para escolher um candidato. Há também quem enfrente dificuldades materiais para chegar ao local de votação.

 

As motivações são diferentes. Não cabe transformar a ausência em voto presumido para qualquer candidatura, tampouco atribuí-la indistintamente a falhas do poder público. Mas cabe perguntar se estamos fazendo o suficiente para compreender quem não vota e por quê.

 

A eleição de domingo mostrou que a logística também é parte da democracia. Problemas de transporte e condições climáticas adversas motivaram pedidos de prorrogação da votação. O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, determinou a extensão do horário até as 19 horas, mas a decisão, comunicada depois das 17 horas, só pôde ser aplicada às seções ainda abertas.

 

O próprio presidente do TSE reconheceu que a medida exigiu adaptações extraordinárias nos sistemas de apuração. Segundo ele, milhares de urnas já haviam sido encerradas, sem possibilidade de reabertura. Nunes Marques afirmou que a equipe técnica superou as dificuldades e preservou a segurança da apuração.

 

São duas questões que precisam ser examinadas separadamente: a integridade do resultado eleitoral e a igualdade das condições de acesso ao voto. A primeira diz respeito à confiabilidade da contagem. A segunda, às circunstâncias concretas em que milhões de pessoas exercem um direito constitucional.

 

Uma pode estar assegurada sem que a outra tenha sido plenamente realizada. Para quem dispõe de transporte, tempo e condições físicas adequadas, votar pode ser um procedimento simples. Para outros, a participação depende de fatores que as estatísticas eleitorais não conseguem explicar sozinhas.


É nesse ponto que a democracia encontra a desigualdade brasileira. A urna recebe votos iguais. A vida que antecede o voto está longe de oferecer oportunidades iguais.

 

Isso não diminui a conquista representada pelo comparecimento de mais de 128 milhões de brasileiros. Ao contrário, ajuda a compreender a importância de ampliar as condições para que mais pessoas participem. Também convida a olhar para o que acontece depois da eleição.

 

Durante as campanhas, cada cidadão se torna objeto de uma atenção extraordinária. Pesquisam-se suas preferências, seus medos, suas preocupações, suas possibilidades de comparecimento. Há uma indústria inteira dedicada a antecipar suas escolhas e disputar sua atenção.

 

Terminada a votação, começa outra contabilidade. Aquele eleitor passa a aparecer nos indicadores de emprego, renda, endividamento, escolaridade, saúde e segurança. Sua vida é traduzida em médias, séries históricas e metas de governo. Os números são indispensáveis à formulação de políticas públicas, mas podem tornar invisíveis as experiências que pretendem representar.

 

Uma família pode receber um benefício e continuar sem conseguir pagar o aluguel. Um trabalhador pode estar empregado e perder quatro horas por dia no transporte. Uma comunidade pode ter acesso formal a serviços públicos e continuar distante das decisões que afetam seu cotidiano. Tudo isso conta. Mas nem sempre entra na conta.

 

Lula inicia a preparação de seu quarto mandato diante de um país profundamente dividido. Quase 60 milhões de brasileiros votaram em seu adversário. Outros milhões escolheram votos brancos ou nulos. Mais de 30 milhões não compareceram.

 

Não formam um bloco único, nem compartilham necessariamente os mesmos interesses. O que têm em comum é o direito de ser considerados nas decisões do Estado.


Lula recebe a chance de consertar o que não andou bem, e poderia ter-lhe custado a reeleição, o que seria lamentável para o país e para a sua biografia.

A trajetória de Lula, goste-se ou não, é patrimônio deste país, como símbolo da força, da resiliência e da capacidade de realização de um personagem histórico que emergiu do povo.

 

A vitória nas urnas confere o mandato para governar. A capacidade de representar uma sociedade tão diversa será construída ao longo do exercício desse mandato. Isso exige instituições capazes de ouvir, prestar contas e responder às necessidades concretas da população. Exige também reconhecer que participar da democracia envolve muito mais do que comparecer à seção eleitoral a cada dois anos.

 

A confiança pública depende da integridade das eleições, mas se alimenta igualmente da experiência cotidiana com o poder. Cresce quando as pessoas percebem que sua voz produz alguma consequência e que os serviços públicos alcançam suas necessidades.

 

Ontem contamos os votos. Hoje precisamos compreender melhor as ausências, as desigualdades de participação e as expectativas de quem ajudou a decidir a eleição. A democracia brasileira demonstrou capacidade de mobilização. O desafio, agora, é fazer com que essa participação tenha continuidade na vida pública. Porque o eleitor conta no dia da eleição. O cidadão precisa contar todos os dias.

 

 

* Adriano Floriani é jornalista, doutor em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB) e consultor sênior em estratégia narrativa.


 
 
 

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