Antes de o mundo virar recurso
- Adriano Floriani
- 25 de jul.
- 2 min de leitura

Já havia visitado territórios e comunidades Kaingang, Guarani e Pataxó. Mas, na última semana, na Aldeia Multiétnica, na Chapada dos Veadeiros, vivi algo diferente.
Por algumas horas - que poderiam ter sido milênios ou poucos segundos -, o tempo desapareceu. Eu enxergava tudo através de uma espécie de névoa, como acontece nos sonhos.
Antes de o mundo virar recurso, ele era parente. Terra, seiva, água, magma e sangue pareciam guardar a mesma origem. A mesma mãe remota, dando forma a seres tão distintos que esquecemos o parentesco.
Vieram então algumas evidências antigas:
Antes da cidade, havia território.
Antes da propriedade, pertencimento.
Antes do documento, memória.
A assinatura veio depois da palavra.
A tela, depois da presença.
A rede, muito depois da conversa.
Voltei daquele transe ao som dos chocalhos e dos pés batendo, fortes e compassados, contra o chão.
Chamamos de primitivo aquilo que não se organizou segundo a nossa conveniência. A palavra atravessou séculos carregando a soberba de quem possuía relógio, pólvora, escritura e cerca - e, por isso, acreditava ter chegado primeiro ao futuro.
Nossa civilização tão adiantada aqueceu o planeta, contaminou rios, derrubou florestas e agora organiza grandes conferências para descobrir como continuar existindo.
Convém alguma modéstia no balanço de resultados. Ailton Krenak nos lembra que a separação entre humanidade e natureza foi uma invenção bastante lucrativa. Quando o rio vira "recurso hídrico”, a floresta se transforma em “ativo ambiental” e a montanha passa a valer como “reserva mineral”, fica mais fácil feri-los.
A mesma lógica alcança as pessoas. Classificadas em números, submetidas ao poder ou tratadas como obstáculos, elas também desaparecem por trás do vocabulário técnico.
A palavra faz o trabalho antes de o debate começar. Define o que é ativo e o que é entrave. Quem decide e quem apenas será consultado. O que entra no cálculo e o que pode ser ignorado.
Nos próximos anos, o Brasil discutirá intensamente mineração, terras raras, transição energética e o Plano Nacional de Mineração 2050. A disputa técnica será necessária. Mas existe outra, anterior: a disputa pelo vocabulário. E ela costuma ser vencida por quem sempre teve o poder de nomear.
Achamos primitivo aquilo que chegou antes da nossa arrogância. Mas a raiz não representa a infância da árvore. É o que continua segurando seu peso quando o vento aumenta.
Quem não narra para todos ouvirem continuará sendo narrado por quem não deseja escutar. Vale para empresas, governos e, sobretudo, para os territórios.
Até quando fingiremos que não somos primos das pedras?



Que texto precioso, Adriano. Sensível, contundente, poético.