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A hora de Lula ser ainda maior do que Lula


Foto: Ricardo Stuckert/PR
Foto: Ricardo Stuckert/PR

Por Adriano Floriani


Há uma diferença fundamental entre líderes que constroem legados e líderes que os consomem. Os primeiros sabem reconhecer o momento em que sua maior contribuição ao projeto que defendem não está em permanecer no centro do palco, mas em iluminar quem vem depois. Os segundos ficam no umbuzeiro até o galho quebrar. Lula está diante dessa escolha agora.


Os números de abril de 2026 são inequívocos. O presidente lidera o índice de rejeição entre todos os pré-candidatos à Presidência, com 48% dos eleitores afirmando que não votariam nele de jeito nenhum. Nas simulações de segundo turno, Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente, empatados dentro da margem de erro.


O próprio Lula relativizou a certeza que demonstrou em outubro de 2025, afirmando agora que "não decidiu que vai ser candidato ainda" — embora reconheça que "todo mundo sabe que dificilmente" deixará de concorrer. É a linguagem de quem sente o solo ficar mais instável sob os pés, sem ainda saber como descer com dignidade.


A questão, portanto, não é mais "se" Lula deve abrir mão da candidatura. É quando e como essa decisão vai acontecer — e se ocorrerá de forma soberana, como ato de estadismo, ou arrancada pela força bruta das circunstâncias.


O tarifaço que virou espelho


Foi o tarifaço de Donald Trump que expôs, com clareza impiedosa, tanto as forças quanto os limites do governo. Quando, em abril de 2025, Washington impôs tarifas sobre produtos brasileiros — que chegaram a 50% em julho, com retórica explicitamente vinculada à prisão de Bolsonaro e às decisões do STF —, o Planalto precisou navegar entre o discurso de soberania nacional e a necessidade pragmática de negociar. As negociações buscaram enfatizar argumentos técnicos, tentando despolitizar a discussão para evitar atrito ideológico com o governo Trump, com interlocução conduzida pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.


O desfecho veio por via que o governo não controlou: a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou as tarifas recíprocas em fevereiro de 2026, e o Brasil registrou a maior queda relativa nas tarifas médias entre os 20 principais parceiros comerciais americanos. Vitória real, mas conquistada à revelia da estratégia do Palácio do Planalto. É um retrato fiel do terceiro mandato: realizações concretas, narrativa frágil, popularidade em erosão.


O episódio revelou também quem tem densidade para conduzir o Brasil em ambientes de pressão externa. Alckmin negociou com o setor produtivo e com Washington sem o ônus ideológico que pesa sobre Lula. Simone Tebet e o MDB calibraram posições com equilíbrio. O campo democrático tem quadros — o que falta é a bênção do fundador para que eles ganhem escala e legitimidade eleitoral.


O campo democrático precisa de um nome, não de uma sigla


A direita já resolveu seu problema de sucessão. Flávio Bolsonaro consolidou o espólio político do pai condenado e se coloca como principal adversário do campo democrático. Ronaldo Caiado, recém-filiado ao PSD, foi lançado pré-candidato da centro-direita em março, tentando viabilizar uma alternativa ao confronto mais polarizado. O bolsonarismo tem herdeiro; a centro-esquerda ainda orbita em torno de um líder de 80 anos que hesita em definir quem vem depois dele.


Essa assimetria é perigosa. Enquanto a oposição consolida candidaturas e ocupa o imaginário do eleitor, o campo democrático permanece refém da indefinição de Lula. E cada semana que passa sem uma sinalização clara é uma semana entregue ao adversário.

Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda, é hoje o nome mais viável no PT para uma eventual substituição, com empate técnico com Flávio Bolsonaro em simulações de segundo turno. Camilo Santana acumula capital político e rejeição baixa. Alckmin, como se viu no tarifaço, tem credencial com o setor produtivo e interlocução com o centro. Nenhum deles, porém, vai descolar do chão sem que Lula decida, com clareza e antecedência suficiente, que o projeto é maior do que o candidato.

A candidatura que pode derrotar Flávio Bolsonaro em outubro precisa de pelo menos três atributos que dificilmente se constroem do zero em seis meses: capital eleitoral acumulado, capacidade de agregar polos antagônicos e percepção de renovação — ainda que seja uma renovação de rosto conhecido. Alckmin tem a credencial de centro; Haddad tem o programa; Camilo tem a imagem de gestor competente. Mas nenhum deles tem tempo hábil para construir massa crítica se a sinalização de Lula chegar tarde demais.


A arte de saber descer do umbuzeiro


Getúlio Vargas, conforme relata Lira Neto na sua trilogia biográfica, considerava a política uma espécie de arte de saber a hora de descer do umbuzeiro - um episódio da infância do caudilho que o livrou de uma surra do pai. O próprio Vargas acabou ficando tempo demais no umbuzeiro. Quando o momento exigiu uma decisão de estadista, ele a tomou de forma trágica e definitiva — e o Brasil pagou décadas de autoritarismo e instabilidade até que um trabalhador pudesse, pela primeira vez, assumir a Presidência pelo voto.


Cinquenta anos depois, esse trabalhador tornou-se o maior líder político da história republicana brasileira. Não por ter vencido três eleições, mas por ter provado que é possível governar para os mais pobres sem abrir mão da democracia. Seria uma ironia dolorosa que esse mesmo líder comprometesse parte desse legado por não saber reconhecer o momento em que sua maior contribuição ao projeto democrático é precisamente a generosidade de não ser o candidato.

A sabedoria política que Lula demonstrou ao longo de décadas — nas derrotas que o forjaram, nas alianças improváveis que o elegeram, no pragmatismo que lhe permitiu governar num Congresso hostil — é a mesma sabedoria que a conjuntura exige agora, em dose mais concentrada do que em qualquer outro momento de seu percurso. Não a sabedoria de sobreviver, que ele já domina como ninguém. Mas a sabedoria mais rara e mais difícil: a de confiar no que construiu.

Caiado e Zema, nomes da direita sem o peso da polarização, apresentam rejeições de 16% e 17% — um contraste que ilustra com precisão o que o eleitorado de 2026 está sinalizando. Há demanda por continuidade das políticas que funcionaram, sem o custo de uma polarização que já exauriu as duas pontas. O eleitor está cansado — não do projeto, mas dos nomes que o encarnam na disputa mais visceral. É exatamente nesse intervalo que uma candidatura ungida por Lula, mas não idêntica a ele, pode prosperar.


O legado que ainda pode ser escrito


Ao indicar um sucessor com tempo, critério e compromisso público, Lula não estaria se aposentando da política. Estaria fazendo sua jogada mais sofisticada. Seria o arquiteto de uma transição que consolida o campo democrático, refunda o PT para além de uma sigla que se tornou personalista e abre espaço para a geração que precisa assumir a condução do país nas próximas décadas. Seria o mentor que a história vai lembrar com admiração — não o candidato que perdeu por teimosia ou ganhou por falta de alternativa.


O tempo é curto. As convenções partidárias acontecem entre julho e agosto. Uma candidatura que não estiver estruturada antes disso não terá condições de disputar em pé de igualdade. A janela para uma transição soberana e planejada se fecha a cada semana de hesitação.


Onde estiver, Lula encontrará sempre solo firme para pisar. Essa é a diferença entre ele e Vargas — e é exatamente por isso que a escolha que tem diante de si pode ter um final mais feliz. Um final que ele próprio ainda pode escrever, enquanto ainda está por aqui, com a lucidez e a saúde que lhe permitem ver o que poucos enxergam: que a maior vitória de um líder não é a que ele conquista para si, mas a que ele torna possível para quem vem depois.


Que o presidente tenha inteligência, lucidez e coragem para testemunhar — e protagonizar — uma história assim. E que sob a sombra do seu umbuzeiro, já estejam germinando os sucessores que o Brasil precisa.



  • Adriano Floriani é jornalista, doutor em Comunicação pela Universidade de Brasília e fundador da ponto(i)maginário consultoria.

 
 
 

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