top of page
Buscar

A conta do eleitor que não conta

há 3 dias
4 min de leitura

A batalha eleitoral se trava na lógica da planilha. Quem governar vai precisar escutar a variável decisiva: quem não é bolsonarista nem petista


Por Adriano Floriani



A eleição se aproxima do desfecho e a ansiedade explode. Cada voto vale por dois: o conquistado e o que deixa de ir para o adversário. São as últimas horas de mobilização nas ruas e no ambiente digital para formar o tsunami (ou marola) capaz de levar o campo democrático à vitória neste domingo (25). Mas nada está decidido.


Com todas as ressalvas possíveis, minha convicção é que Lula merece e o Brasil precisa de seu quarto e último mandato, para consolidar avanços institucionais, sociais e geopolíticos, com mais prosperidade, democracia, diálogo e participação.


O pleito será definido por um contingente silencioso, muitas vezes ignorado pelo discurso dirigido aos convertidos. Diante da urna, um filme deve passar pela cabeça desse eleitor: a fome erradicada, o golpe do impeachment contra Dilma, Lula preso, Bolsonaro eleito, a volta ao mapa da fome, Lula livre e eleito, a tentativa bolsonarista de golpe de Estado, Bolsonaro preso, o país de novo fora do mapa da fome.


O futuro também pesa: democracia ou autoritarismo, a ameaça Trump, terras raras, soberania tecnológica. Talvez seja muita coisa para quem se preocupa com o almoço de amanhã, os boletos vencidos, o tratamento de um familiar, a folha de pagamento dos funcionários.


Resultado imprevisível


Transformado em estatística difusa, entre brancos, nulos e abstenções, esse eleitor ganha agora ares de majestade junto às campanhas. Mas, antes de virar dado, era alguém. Tinha nome, retirado para proteger a privacidade. Tinha corpo, convertido em variável. Tinha história, apagada para não atrapalhar o gráfico. Tinha família, dívida, sotaque, cicatriz e alguma esperança que não coube em nenhuma coluna da tabela.


Feito dado, entrou numa base; a base, num modelo; o modelo, num painel; o painel, numa decisão. E a decisão voltou para o corpo. É assim que o mundo gira hoje: a vida sobe como informação e desce como política, preço, risco, escore, vigilância, exclusão, bala...


Nunca se soube tanto sobre o eleitor brasileiro, segmentado em perfis pelas campanhas que buscam alcance, impressões, engajamento. E poucas vezes uma eleição presidencial foi tão imprevisível. Enquanto isso, as plataformas digitais decidem, com vieses e critérios obscuros, o que cada um verá.


Em português, contar é somar e é narrar. Domingo, os votos serão contados no primeiro sentido em poucas horas. O segundo é o que a política mais tem negligenciado. Essa negligência produz desconfiança. A extrema direita entendeu isso antes: não ofereceu dados melhores, ofereceu uma história em que o ressentimento ganhava nome, culpado e lugar.


O campo progressista tem aqui uma lição incômoda. Foi quem mais usou dados para reduzir a pobreza, mas indicadores melhores nem sempre viraram reconhecimento: parte de quem deixou a miséria atribui a mudança ao próprio esforço ou à fé. Chamar isso de ingratidão é repetir a obtusidade da planilha. Sem narrativa compartilhada, um avanço concreto vira mérito individual ou favor, raramente direito construído em comum.


Quem define as categorias


Nenhum dado nasce neutro. Alguém decide o que medir, o que ignorar, que comportamento conta como risco. O reconhecimento facial erra mais com rostos negros, e o erro pode terminar em prisão. A casa-grande trocou a varanda pelo painel de controle, mas segue decidindo quem é variável e quem formula a pergunta.


Por isso, a presença de pessoas negras, mulheres e moradores das periferias nos espaços de decisão é questão de conhecimento, não só de representação. Quem vive protegido pelo privilégio branco e pela cultura machista, e me incluo, precisa reconhecer os limites do próprio olhar.


Quero que meus filhos cresçam num país capaz de, minimamente, levar uma mulher preta à Presidência da República, num acerto de contas com a nossa história e demonstração de avanço civilizatório.


Há ainda a soberania. Os dados dos brasileiros são explorados por plataformas estrangeiras que o país mal consegue fiscalizar. Regular algoritmos e construir infraestrutura pública digital, como o Pix, é parte da resposta. Mas a autonomia será frágil se, aqui dentro, muitos continuarem processados como erro do sistema.


Lula reconstruiu a proteção social, defende a regulação das plataformas e ainda reúne as condições para articular democracia, inclusão e autonomia internacional.

O dado tem vida curta e nem sempre corresponde ao que se espera. Não é dele a culpa. Cansado de ser arrastado de célula em célula, um dia o dado escapa e volta ao corpo de onde veio: respiração, incerteza, fome, desejo, memória.


Domingo o dado tira a máscara e o disfarce. A apuração levará poucas horas; a escuta, um mandato inteiro. O fascismo seguirá vivo, com maior ou menor força. A disputa envolve a confiança do eleitor. Cada um precisa saber com quem pode contar. Cada eleição nos lembra que o voto é diálogo contínuo, em que o cidadão relembra aos governantes: antes de me contar, me escuta.



Adriano Floriani é jornalista, doutor em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB) e consultor sênior em comunicação e estratégia.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page