Tecno-floresta: o futuro que o Brasil pode construir e ensinar ao mundo
- Adriano Floriani
- 25 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Recentemente, li o artigo "O que aprendi no Zeitgeist: três dias medindo o futuro", de Diego Barreto, CEO do iFood, no Brazil Journal. O texto relata uma imersão no epicentro das discussões sobre tendências tecnológicas globais.
A leitura foi feita na semana de lançamento do Redata, o novo regime proposto pelo Governo Federal para atrair investimentos em data centers no Brasil, e às vésperas da COP30 em Belém, momento central para a agenda amazônica e os desafios climáticos do planeta. Essas iniciativas se cruzam: indicam como o país se posiciona nessa encruzilhada entre floresta viva e infraestrutura digital.

No relato sobre sua participação no Zeitgeist, encontro idealizado pelo Google, Barreto se vê como um dos poucos brasileiros num ambiente privilegiado de mentes que pensam o futuro planetário. Isso, por si só, é sintomático: o Brasil ainda é mais espectador do que protagonista nas discussões sobre o amanhã.
Enquanto o Zeitgeist fala de computação quântica, IA generativa, biotecnologia, fusão nuclear e redes descentralizadas, o Brasil convive ainda com desafios estruturais: desigualdade, fragilidade institucional, ameaça de colapso socioambiental, crise de confiança.
Vivemos, como diria Ailton Krenak, “tempos paralelos” — urgências imediatas coexistindo com sonhos futuros. Talvez nossa vantagem esteja nessa tensão criativa.
Risco de um futuro importado
O Zeitgeist fala de “novas gramáticas da civilização” — IA, robótica, biotecnologia —, mas fica a pergunta: quem escreve essa gramática? O problema não está na tecnologia propriamente, mas no modelo de mundo embutido nela. Se o Brasil apenas importar plataformas, algoritmos e narrativas de inovação, será um usuário colonizado de futuros alheios.
O Redata ilustra parte dessa preocupação: pretende desenvolver nossa economia digital ao conceder isenções fiscais federais para construções e operações de centros de dados que atendam requisitos estratégicos, como uso integral de energia renovável.
Soberania digital, de fato, surge como uma questão fundamental nos dias atuais. Mas vamos seguir importando e copiando modelos que não alterem a lógica econômica insustentável da máxima produtividade e do regime de acumulação que exaure os recursos naturais? Das narrativas que silenciam vozes e das imagens que impõem padrões?
Potências
O Brasil já possui forças que poderiam, no mínimo, tensionar esse quadro. Modelos econômicos baseados na suficiência, na circularidade e na reciprocidade antecipam a lógica regenerativa que o futuro exigirá. Nas favelas, nas periferias e nas aldeias pulsa uma inteligência adaptativa e estética que já opera fisicamente na borda do novo — e que será vital numa época de rupturas. Além disso, o Brasil dispõe de diversidade biocultural como laboratório vivo do planeta.
Às portas da COP 30, temos a oportunidade de mostrar ao mundo que podemos fazer diferente. Para começar, incorporando cosmovisões indígenas para construir nossa visão de país. Nosso futuro depende de perguntas essenciais, relacionadas aos saberes dos povos originários: “Esta inovação devolve algo à Terra? Fortalece vínculos entre seres? Ou apenas extrai?”.
O Brasil tecno-florestal
Imagine o Brasil em 2040 como um país tecno-florestal — não por fusão literal entre chips e cipós, mas por incorporar à sua matriz tecnológica as dinâmicas da própria floresta: operar com autonomia distribuída, como uma rede viva em que cada parte contribui para o equilíbrio do todo; cultivar interdependência entre sistemas sociais, naturais e digitais, de modo que inovação, conhecimento ancestral e diversidade biocultural se entrelacem; construir resiliência inspirada na adaptabilidade dos ecossistemas, capaz de absorver choques e regenerar-se diante das mudanças globais.
Tecno-florestal não seria apenas um modo de integrar tecnologia e natureza, mas uma proposta de reorganizar a sociedade tecnológica a partir dos princípios ecológicos da floresta: cooperação, reciprocidade e renovação contínua.
Nesta visão, universidades formam engenheiros da regeneração, escolas ribeirinhas ensinam algoritmos em Nheengatu e Iorubá, cidades reutilizam esgoto, transformam dados em solidariedade e políticas. Exportamos não commodities, mas sabedoria ecológica digital — uma tecnologia que reverbera alma e vínculo.
Algumas direções possíveis:
Educação transformadora: tornar escolas laboratórios de imaginação, combinando ciência, arte, filosofia e cosmovisão.
Soberania digital ativa: estruturas de IA e dados abertos, com governança plural, participação cidadã, incubadoras de inovação indígena/afro/periférica.
Economia regenerativa: usar indicadores de bem-viver e equilíbrio ecológico em vez do PIB extrativista.
Governança múltipla: usar tecnologia para fortalecer assembleias territoriais, conselhos comunitários, consultas autônomas — nunca substituir.
Narrativas e arte: reencantar o futuro com estéticas tecno-ancestrais, ficções amazônicas, afrofuturismo que respira localidade.
Conclusão
O Zeitgeist mede o futuro em bits, tendências e saltos. Mas o Brasil — na esteira da COP30 em Belém — pode propor medi-lo em ritmos, vínculos e reciprocidades.
Nosso movimento não é correr atrás das tecnologias, mas ensinar que as máquinas também podem dançar ao compasso da chuva, do vento e da floresta.
Que transformemos a corrida tecnológica em dança cosmopolítica — na qual rios, espíritos, dados e comunidades criam juntos o novo, com respeito às ancestralidades e ao futuro do planeta. Entre utopia e distopia, certamente haverá um caminho do meio.



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